quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Quem se comove é um vigarista. A companhia de cômicos, os Gelosi, e Isabella Andreini.


A palavra dos atores é viva, tem um fascínio irresistível provocado pelo seu contínuo frescor. 
O teatro proposto pelo mestre do paradoxo (Diderot), nunca conseguiu obter um interesse popular, apesar de ser um literato extraordinário e bastante espirituoso.
Ele era possuído por uma preocupação de uma preparação do ator dentro de uma racionalidade absoluta, mas podemos nos divertir com o puro exercício da razão também.

A dialética nos ensina a empregar vantajosamente o conflito dinâmico dos opostos.
Experimentar a emoção e conservar ao mesmo tempo o senso crítico é possível com a prática.
Tudo depende do quanto se está treinado para conter certos estímulos, da sabedoria na administração do emocional e do racional, de um equilíbrio capaz de se traduzir em efeito propulsor.

Os cômicos da commedia dell´arte, adotam todos os estímulos e contra-estímulos, em uma base alterável de atuação.
Diderot também fala que um artista deve cultivar a sensibilidade, mas é mais rígido no treinamento emocional do ator.

Outra idéia que deve ser demolida é que os cômicos da commedia dell´arte, eram um bando de miseráveis, incultos, saltimbancos que sobreviviam mal e porcamente, desprezados pelos cidadãos honestos .
Esta ideia é um grande despropósito, sim, é verdade que ao folhearmos algumas crônicas que escreviam a vida dos cômicos, frequentemente nos deparamos com companhias praticantes de um teatro verdadeiramente charlatão.
O teatro de commedia dell´arte por três séculos na Europa, foi construído por um grupo de pessoas cultas, bem preparadas e de gosto moderno. Vito Pandolfi publicou em "Crônicas da Commedia de´´ Arte", um testemunho autêntico escrito por um  protagonista dos acontecimentos, que relata a trágica viagem da companhia de cômicos, os Gelosi.
O rei da França Henrique III, assiste uma representação desta companhia e fica entusiasmado. Pede para ter na sua corte a companhia Gelosi por um tempo. No meio do caminho um bando de protestantes da França (hunguetones), captura toda a companhia.
Certamente é do conhecimento geral o conflito existente na segunda metade do século XVI entre os católicos ligados a Roma e os protestantes franceses, marcado por inúmeros massacres.
Enfim, um bando de hunguetones tenta chantagear o rei organizando esse ato terrorista de captura de toda a companhia Gelosi em troca pedem a libertação de todos os hunguetones aprisionados na França e mais dez mil florins de ouro e cinquenta mil de prata; ou receberiam só uma parte deles: as cabeças.
Depois de 15 dias de negociação, a troca acontece e os atores finalmente podem prosseguir. O caso envolvia atores vindos à França sob a égide da Sereníssima,  o rei já havia convidado as personalidades mais importantes do reino e ilustres hóspedes estrangeiros para o espetáculo mais prestigioso do século. Certamente não seria conveniente apresentar as cabeças dos atores em bolsinhas de sal.
Outro fato trágico, no regresso da companhia de Paris à Itália, em Lyon, Isabella Andreini, a grande cômica dos Gelosi, grávida de 8 meses, sente-se mal, aborta e morre.
O funeral, dizem as crônicas, parecia o de uma rainha, cumulado de pompas e honrarias , deixando perplexos, especialmente, os cômicos que a acompanhavam.
Atrás do féretro, em um carro coberto por uma montanha de flores, estavam príncipes, poetas e escritores de toda a Europa.
Isabella Andreini foi a única mulher de sua época aceita como membro em nada menos do que quatro academias.
E não apenas por seu fascínio, mas também por seu talento e extraordinária verve poética. Ela não era a única pessoa culta entre os artistas de teatro à italiana, pelo contrário: existiam atores capazes de escrever histórias bastante inteligentes com um estilo muito refinado.
Além disso, frequentava os cérebros mais brilhantes de seu tempo: Galileu Galilei (autor de dois roteiros), Ariosto, Pallavicini, grandes arquitetos e, Michelangelo e Rafael, outros dois grandes amantes do teatro.


Nenhum comentário:

Postar um comentário